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Radical? Não, obrigado!

Francisco Soares de Moura

Há muito tempo que pratico todo-o-terreno (TT). Julgo que aprendi a guiar num velhinho Land Rover, fiz muitos milhares de Kms de mota, e fui sempre aproveitando para dar uns passeios com amigos. Há alguns anos o bicho mordeu mais a sério, e agora passo grande parte dos meus tempos livres no monte, de jipe, mota, ou BTT, ou na garagem, a recuperar de uma saída e a preparar a seguinte.

Infelizmente essas coisas também podem correr mal (às vezes correm mesmo muito mal...) e talvez seja por isso que frequentemente ouço comentários negativos acerca dos desportos radicais, que estou em idade de me deixar disso, e por aí fora. Pelos vistos, ser radical é sinónimo de ser inconsciente, gente que ``não as pensa'', e claro que um professor universitário tem de ser normal, não é?

Mas o que é que o TT e os desportos radicais terão a ver com a Informática, ou pelo menos com os Sistemas Operativos, a área onde me especializei? Já lá vamos.

Para já, as duas actividades tem algo em comum, esse mal que dá pelo nome de crash. Só que as semelhanças acabam aí. No TT um crash resulta quase sempre de um desafio que nós levamos longe demais, é algo perfeitamente normal, diria que faz parte do programa da disciplina. Aprende-se, e da vez seguinte já as coisas correm melhor. Tem de correr melhor, caso contrário está na altura de procurar outra ocupação. Os erros normalmente pagam-se caro, e um crash sai-nos quase sempre do corpo e/ou da carteira. Mas esse é um dos aspectos de que gosto no TT: não há o meio termo, quem lá está, está a sério e tem de ser competente naquilo que faz. Não há botão de UNDO num corta-fogo ou ``drop-off'' de um rochedo. E na Informática?

É certo que há uma dose de risco associado ao TT e aos desportos radicais. É um risco assumido, e por isso ninguém no seu perfeito juízo se mete nelas sem protecção adequada. E na Informática? Já adivinharam, quanta informação crítica não estará guardada em máquinas radicais, à mercê de sistemas operativos radicais, administradas por gente radical e sujeitos a crashes radicais? Alguém falou em segurança? Tolerância a faltas? Desculpe, mas houve um problema com o sistema informático e...

Hoje em dia tudo é radical, está na moda, vende bem, até há programas na televisão, gente bonita, é a geração ``O'Neill'' ou equivalente. E na Informática? Pois é, tal como aqueles jipes reluzentes estacionados junto às esplanadas, não andará por aí muito informático com a Byte debaixo do braço, muito estilo e pouca praxis? ``Surfar'' só na Internet, e quanto a meter as mãos na massa e escrever uns programazitos, isso é outra conversa. O melhor é comprar feito, de marca reconhecida, e quanto mais caro melhor.

Julgo que a mensagem é muito clara: na Informática de hoje há cada vez mais necessidade de pessoal competente e que não tenha medo dos desafios. Ontem ainda podiamos fazer boa figura acenando com tecnologia de ponta comprada na casa de desporto da esquina, mas agora a competição é muito maior e há cada vez mais gente a saber distinguir os bons dos outros. Tal como no TT, o material é muito importante, mas a principal diferença ainda está na peça que dá aos pedais na BTT, ou que dá gás na mota ou no jipe. E que também procura travar a tempo de não fazer grossa asneira.

Devemos então perguntar a quem se destinam os cursos de Informática actuais. Serão para os que, apesar de engolirem em seco perante um grande desafio, acabam por dizer sim, acho que vou ser capaz; talvez dê umas quedas pelo caminho, mas chego lá depressa. Ou será que é tudo gente sossegada, que prefere passar o domingo de manhã a dormir quando podia estar a treinar-se para o monte seguinte? Radical? Não será antes virtual?




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Francisco Moura
Tue Jan 13 11:28:43 WET 1998